Clínica do Traumático

Como devem se preparar os analistas em tempos de pandemia e para a pós-pandemia?

A clínica do traumático na história da teoria psicanalítica

De Freud a Ferenczi, de lá até os teóricos e pesquisadores do campo psicanalítico atual, o trauma esteve no centro da pauta da Psicanálise e como ponto de partida para novos pensamentos teóricos e desenvolvimento na clínica de uma forma geral. Freud e Ferenczi, por exemplo, divergiram em muitos pontos em relação ao trauma, mas com o tempo, mesmo para Freud, o trauma acabou assumindo em sua teoria e prática um lugar essencial, como no caso dos sonhos traumáticos, o que mudava sua concepção de sonho e sua função, ampliando-a no sentido de ter como causa primária os acontecimentos recentes de cunho traumático, onde então, o eliminar motivos para interrupção do sono por meio da realização de desejos não seria a sua função original.

Ferenczi – atento aos jogos de poder –, num polo político oposto ao de Freud, e também em como encarava o sofrimento psíquico, pensava o trauma advindo da ordem de uma relação. Ferenczi assume o trauma como centro de toda a sua obra, onde a figura do desmentido, da negação da realidade dos fatos e da violência pelo agente traumatizante, cria no sujeito que sofre o trauma uma condição aterrorizante de desamparo e dor insuportável, onde a reprodução e repetição dessa agonia psíquica – compulsão a repetição – aumenta essa dor e ao mesmo tempo, paradoxalmente, pode sustentar a possibilidade de elaboração e neutralização do traumático.

Poderíamos também pensar e considerar o lugar do psiquismo no humano, por si só, como algo de cunho traumático.

Se o trauma se torna central para pensarmos a Psicanálise e o humano, e na clínica de cuidado e busca de tratamento, vale ainda mais pensarmos e estudarmos tal temática, por estarmos envolvidos em um momento extremamente exigente, desafiador e potencialmente traumático.

 

O pós-traumático e a pandemia

A pandemia do coronavírus pode ser caracterizada como um acontecimento potencialmente traumático. Tal acontecimento e as questões que o envolvem, vem atravessando nossos psiquismos, e sabemos, que os principais efeitos dos acontecimentos traumáticos ocorrem no que se chama pós-traumático. No caso da pandemia, depois de a quarentena terminar, e a vacina (se vier) vir.

Muitas vezes, é em outro momento, quando a situação eventualmente se “normalizou”, que ocorre a maior incidência de uma tendência patológica, de depressão, crises de ansiedade, etc. Pesquisas em torno dos efeitos psíquicos de quarentenas realizadas por ocasião da epidemia do Ebola, na África, ou do H1N1, mostram que efeitos nocivos para a saúde mental podem vir depois de até três anos do fim do isolamento.

Vivemos momentos de confinamento e suspensão – do tempo, do desejo, do fluxo de recursos para contenção das necessidades e sobrevivência, do sonho, e da esperança, entre outros. Faz-se necessário ampliar e pensar os recursos e espaços de cuidado, olhando para os futuros possíveis pós-pandemia e pós-quarentena, pois será preciso prepararmo-nos para tal.

Por isso, definimos como um dos primeiros propósitos para um curso da Ubuntu, como um momento importante para os analistas e psicólogos, onde se torna necessário atualização profissional, para lidar com esse fato coletivo. Como os analistas devem lidar com esse potencial fator traumático na clínica? Essa é a questão que deverá nortear o curso.

 

Técnica e Enquadre clínico

E pensando a partir daí também, e a partir de visões diferentes, vindas da teoria psicanalítica - tanto as mais modernas, quanto visões já bem estabelecidas sobre o tema, como a de Ferenczi -, que o enquadre clínico muda, para responder à lógica do sofrimento vigente e que virá.

 

Assim como o sonho toma uma lógica diferente, quando olhamos para a questão do traumático e para as fantasias oníricas, com a questão da realização de desejo subordinada à função de domínio e ligação através da simbolização, a questão que fica, até independentemente da pandemia que por ora vivemos, é a se é essa questão não se torna a questão principal na clínica de Psicanálise - a questão do trauma.

 

O curso pretende buscar responder a essa questão e outras, além de realizar outras perguntas sobre o momento que vivemos e o enquadre a ser dado, questões tão importantes em relação ao que seja a clínica do traumático, e o que ela se torna nos dias de hoje e que virão.

 

O curso será de dois meses, de forma online e aovivo, pela plataforma Zoom, com 6 aulas, com os mais experientes psicanalistas e professores, de renome nacional e internacional.

 

As aulas versarão sobre diferentes linhas teóricas da Psicanálise sobre o trauma, a elasticidade da técnica dentro desse contexto, os efeitos da fragmentação dos laços sociais nos sujeitos, as questões ligadas à prática clínico-política (sobretudo às ligadas às questões candentes de nosso país) e sobre a questão do pós-traumático, na pandemia e na possível pós-pandemia.

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